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A alergia alimentar é um dos maiores desafios alergológicos, não só pela sua frequência crescente, mas também pela versatilidade dos quadros clínicos. Nas crianças, o leite de vaca, o ovo, o trigo, o peixe e o amendoim são, entre nós, os alimentos mais incriminados no aparecimento de quadros de alergia alimentar. Outrora considerados transitórios, estes quadros assumem actualmente, com alguma frequência, períodos de duração muito prolongada. Nos adultos, os frutos secos, os mariscos, os moluscos, os vegetais e os frutos frescos são os alimentos mais envolvidos nestas reacções, registando-se um número crescente de reacções a frutos frescos, particularmente em indivíduos com alergia a pólenes.
As reacções adversas relacionadas com a ingestão de alimentos ocorrem em qualquer grupo etário, podendo ser denominadas duma forma abrangente em hipersensibilidade alimentar e divididas em duas categorias principais: 1) Alergia alimentar – compreendem qualquer resposta imunológica anormal secundária à ingestão de um alimento, mais frequentemente mediadas pela produção de anticorpos IgE (alergia alimentar IgE mediada), mas podendo ter subjacentes mecanismos com envolvimento de outras células e mediadores do sistema imunitário (alergia alimentar não IgE mediada). 2) Hipersensibilidade alimentar não alérgica (anteriormente referidas como intolerância e/ou toxicidade alimentar) – formas mais prevalentes, associadas a fenómenos não imunológicos secundários à ingestão de um alimento ou de um aditivo alimentar, podendo consistir em reacções tóxicas, defeitos estruturais, reacções metabólicas, reacções farmacológicas ou reacções idiossincráticas.
Os quadros de alergia alimentar podem então ter um substrato imunológico IgE mediado ou não IgE mediado (celular ou outro), existindo situações clínicas em que podem estar envolvidos qualquer um dos mecanismos imunológicos (mistas).
A sensibilização a alergénios alimentares será a primeira causa de anafilaxia, sobrepondo-se a outros agentes etiológicos frequentemente mais valorizados, como são os fármacos. Recentemente, verificou-se uma modificação do padrão epidemiológico dos alimentos responsáveis pela maioria dos quadros clínicos mais graves: de um padrão tradicionalmente considerado das proteínas do leite de vaca, do ovo e dos mariscos, são referidos agentes major na última década, relacionados com casos fatais, o amendoim, a soja, os frutos secos e frescos e os legumes.
Na criança, as reacções alérgicas ocorrem em até 10%, com tendência crescente. A prevalência nos adultos será de cerca de 2%.
Os alergénios mais frequentemente responsáveis por alergia alimentar em Portugal serão o leite, o ovo, o peixe, os cereais, o amendoim e a soja, os frutos frescos, os crustáceos e os moluscos, os frutos secos, os legumes e as especiarias, sendo uma distribuição de alergénios semelhantes às descritas para outros países do Sul da Europa, bem como se evidencia que a maioria dos doentes apresenta alergia a apenas um grupo alimentar; a alergia alimentar múltipla constitui a excepção, embora seja cada vez mais frequente.
Uma abordagem diagnostica bem sucedida deve basear-se na história clínica – permite identificar os alimentos agressores, baseado numa razoável correlação entre ingestão, presença de eventuais factores condicionantes e aparecimento dos sintomas. Deve ser considerado o padrão clínico que tradicionalmente se associa com os alimentos suspeitos em estudo e nos exames auxiliares de diagnóstico – a escolha deve basear-se na apresentação clínica e no respectivo quadro imunológico subjacente, IgE ou não IgE mediado, adequando-se assim os exames a pedir, constituindo importantes auxiliares, nomeadamente na selecção dos alimentos a incluir na programação de provas de provocação alimentares.

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