AGNES FISIODTM 068

De arquitectura semelhante ao epitélio cutâneo, as mucosas orais reagem de forma semelhante mas mais cedo, fruto de um menor número de camadas no epitélio estratificado destas últimas e da acção de desgaste constante a que estão sujeitas, pela acção dos alimentos, pelo potencial traumático dos dentes, pela acção de outros elementos como o uso de tabaco ou a ingestão de álcool.
As primeiras queixas de ardor e odinofagia surgem no final da segunda semana de tratamento, sendo visível um eritema local, evoluindo para a formação de placas esbranquiçadas, que correspondem a zonas de necrose, que confluem entre si. É frequente o aparecimento de sobreinfecção local por fungos, idêntica à que ocorre em doentes tratados com citostáticos. A evolução para a formação de úlceras e aparecimento de pontos hemorrágicos é rara se forem tomadas as devidas precauções.
É habitual instituir desde o início ou após a segunda semana de tratamento medidas locais visando evitar o acumular de restos alimentares, seja sobre os dentes ou na própria mucosa. Só por si estas medidas evitam uma eventual sobrepopulação bacteriana, potenciada pela redução do fluxo salivar. Na prática o doente é aconselhado a manter uma boa higiene oral, incluindo a escovagem dos dentes e bochechos com um desinfectante diluído (por exemplo, hexetidina 1:10000). O uso de fio dental é igualmente indicado, pois permite a remoção de restos alimentares entre os dentes, evitando usar a escova em demasia. No caso frequente de sobreinfecção por Cândida albicans, o uso de nistatina (300000 U, p.o.. tid) é rapidamente eficaz.
Igualmente frequente é o aparecimento de disfonia, relacionado com o edema das cordas vocais, sujeitas a irradiação, não sendo, no entanto, de temer qualquer alteração ao nível respiratório. Alguma melhoria poderá ser obtida recorrendo a corticóides.
Contrariamente às alterações já descritas, por regra reversíveis após conclusão do tratamento, as glândulas salivares exprimem alterações de uma forma progressiva e raramente reversível e com implicações mais vastas do que à partida possa parecer.
Na primeira semana de tratamento são evidentes alterações qualitativas na saliva, tornando-se esta mais espessa por alteração relativa dos seus componentes mucoso e viscoso. Com a continuação do tratamento, a quantidade de saliva segregada diminui progressivamente, até uma cessação quase total após 5 a 6 semanas de tratamento (o tratamento radical de um tumor epitelial da cavidade oral, com fracionamento convencional, corresponde a 7 semanas de tratamento). Sujeito a grande variação individual poderá haver alguma recuperação após a RT, mais à custa de hipertrofia das glândulas não incluídas no volume de tratamento, do que por recuperação das que o foram.
De tudo isto resulta uma xerostomia progressiva, dificultando o processo de mastigação e deglutição e favorecendo a fragilização das mucosas locais. Este processo de redução do fluxo salivar vai-se revelar, mais tarde, como um dos principais factores de morbilidade tardia ao nível da cavidade oral, principalmente no decaimento dentário. A instituição precoce da aplicação tópica de flúor tem um papel primordial na prevenção das caries dentárias, actuando em sinergismo com as formas de higiene local. Recomenda-se a aplicação local de gel de flúor, durante 5 a 10 minutos, efectuada ao fim do dia.
Esta aplicação pode ser feita manualmente ou idealmente através de moldes dentários, previamente preparados.
A destruição das papilas gustativas gera uma ageusia progressiva, contribuindo também para um agravamento da situação alimentar do doente. Após conclusão da terapia, esta alteração é habitualmente revertida até uma quase normalização.

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