gripe 180x180 - Terapêutica (Febre)

Terapêutica (Febre)

A febre em si não obriga a uma atitude terapêutica, com excepção dos doentes em que a elevação da temperatura possa ser prejudicial para o prognóstico, nomeadamente os com lesão intracraniana, principalmente se com aumento da pressão intracraniana, nos casos de hipertermia severa, superior a 41 °C, em idosos, que com valores mais baixos de pirexia desenvolvem quadros de agitação e delírio agudo, na falência respiratória ou cardíaca severas, em que o aumento do consumo de O2 e a taquicardia complicam a doença de base, ou em doentes visivelmente desconfortáveis pela febre.
Apesar da evidência in vitro e em experimentação animal do benefício da temperatura elevada no incremento da eficiência imunitária e antimicrobiana, não há qualquer estudo no humano que sugira que a febre facilite a recuperação de uma doença infecciosa, pelo que o tratamento judicioso da febre nunca provou causar qualquer inconveniente.
Ao tratarmos a febre com antipiréticos, melhoramos igualmente sintomas sistémicos como a cefaleia, mialgias e artralgias.
O paracetamol é o medicamento oral preferido na dose de 1000 mg cada 6 horas, até um máximo de 4 g/dia no adulto. Tem melhor tolerância gastroduodenal e não interfere na coagulação, ao contrário do que acontece com a aspirina ou os AINEs. A combinação de paracetamol com aspirina ou um AINEs (ibuprofeno 200 mg cada 6 horas, ou naproxeno 250 mg cada 12 horas) é mais eficaz do que cada um isoladamente.
Na hipertermia grave, a terapêutica visa reduzir de forma rápida a temperatura corporal, associando à terapêutica farmacológica meios físicos de arrefecimento externo. Entre as técnicas utilizadas destaca-se o “banho” no leito com compressas embebidas em água tépida a 20 °C, sem imergir o corpo em água para permitir a evaporação e sem deixar haver calafrios, o que voltaria a aumentar a temperatura central. A adição de álcool à água do banho não tem qualquer vantagem, a utilização de sacos de gelo tem mais risco que benefício, sendo preferível a exposição simultânea à ventoinha, que pode aumentar a evaporação.
A eficácia comparativa entre estes métodos físicos e os farmacológicos nunca demonstrou qualquer vantagem dos meios físicos.
Cobertores hipotérmicos, usados em algumas cirurgias e após ressuscitação cardiotorácica bem sucedida, produzem grande vasoconstrição; só deverão ser usados por equipas com experiência, sob monitorização contínua de temperatura com sonda rectal.
A utilização de soros arrefecidos para administração e.v. rápida em doentes desidratados é uma opção eficaz, similar às técnicas contínuas de depuração nas UCI (hemodiafiltração…) sem aquecimento da solução dialisante.
Na hipertermia maligna, por anestésicos ou neuroléticos, utilizamos o nandroleno (Dantrolene) e.v. em doses de 1 a 2 mg/kg cada 10 minutos, até uma dose máxima de 10 mg/kg.

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Febre

A febre é um sinal de apresentação muito frequente, não havendo outro com tanta diversidade de diagnóstico causal.
A temperatura normal medida na cavidade oral ronda os 37 °C (36 a 37,5 °C), sendo a temperatura medida no canal auricular e rectal 0,3 a 0,6 °C mais elevada e a axilar 0,6 a 1 °C mais baixa. Registamos valores mais elevados ao fim da tarde, início da noite, padrão este que se mantém em geral no decorrer de doenças febris.
A febre faz parte dos mecanismos de defesa do hospedeiro contra a infecção, reduz a virulência de várias estirpes bacterianas, aumenta a capacidade fagocitária dos neutrófilos e o efeito citotóxico linfocitário.
A presença de febre, mesmo elevada, nem sempre indicia infecção e nem todas as infecções causam febre, ainda que a infecção continue a ser a causa mais frequente de febre. A etiologia mais provável de uma síndrome febril depende da região geográfica onde o doente reside ou para onde viajou, da sua situação socioeconómica, se está institucionalizado ou na comunidade, actividades de risco, estado imunitário e das co-morbilidades preexistentes.
Década após década, em séries publicadas de doentes com síndrome febril de causa desconhecida, as causas infecciosa e neoplásica revelam uma tendência decrescente, as doenças inflamatórias e a doença febril em que nunca se descobre a causa, uma tendência percentualmente crescente.
Actualmente, para operacionalizar a estratégia diagnostica do doente com febre de causa desconhecida, dividem-se estes em:
– SFI (síndrome febril indeterminado) clássica, febre superior a 38 °C em várias ocasiões, por mais de 3 semanas, sem causa detectada em pelo menos três consultas de ambulatório ou 3 dias de hospitalização.
– SFI nosocomial, febre em várias ocasiões, durante mais de 3 dias de hospitalização e que não estava presente na admissão ao hospital.
– SFI no neutropénico, febre em várias ocasiões, durante mais de 3 dias de hospitalização, num doente com menos de 500 neutrófilos/mm3.
– SFI associado à infecção pelo VIH, febre superior a 38 °C em várias ocasiões, sem diagnóstico etiológico ao fim de mais de 4 semanas em ambulatório, ou de 3 dias de hospitalização.
A dinâmica e a complexidade da avaliação diagnostica de uma síndrome febril dependerá da sua forma de apresentação, da gravidade aparente, das hipóteses geradas pelo exame do doente e da competência imunitária deste.