2812 antibioticos getty 180x180 - Tratamento no Hospital - Escolha do antibiótico inicial

Tratamento no Hospital – Escolha do antibiótico inicial

No doente com critérios de internamento hospitalar, devem ser ponderados os factores de risco para o envolvimento de agentes infecciosos específicos, designadamente a possibilidade de aspiração, as co-morbilidades significativas e a exposição recente a antibióticos.
Tendo em conta que os agentes etiológicos implicados têm origem na comunidade, aplicam-se as mesmas considerações feitas relativamente à pneumonia tratável no domicílio quanto à escolha dos antibióticos de acordo com o perfil esperado de susceptibilidade.
A terapêutica inicial deve incluir, de preferência e tendo em conta as recomendações actuais, um P-lactâmico em combinação com um macrólido. De facto, alguns estudos apontam para alguma vantagem desta associação em termos da redução da duração da estadia hospitalar e da mortalidade, mas nem sempre estes benefícios são igualmente significativos. Por outro lado, o benefício da associação de um P-lactâmico com uma quinolona não foi evidente. Embora a monoterapia com levofloxacina ou moxifloxacina possa ser uma alternativa aceitável em termos de eficácia, os riscos associados à utilização alargada de quinolonas em meio hospitalar, designadamente quanto à emergência de doença associada ao Clostridium difficile e à menor evidência de eficácia em doentes com pneumonia grave devem recomendar a sua utilização apenas nos doentes intolerantes aos esquemas em combinação propostos.

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Clínica (Microbiologia)

Os achados clínicos mais frequentes da pneumonia são febre, tosse produtiva e dispneia.
No entanto, a sintomatologia decorrente de estados inflamatórios agudos do tracto respiratório, sendo muito frequente como motivo de recurso aos cuidados de saúde, raramente se deve a infecção do parênquima pulmonar, sendo necessária a exclusão criteriosa de outras causas de patologia respiratória aguda no sentido de evitar a utilização desnecessária de antibióticos, particularmente preocupante em Portugal l61. Além disso, mesmo nos casos confirmados de PAC, os achados clínicos não apresentam uma correlação útil com a etiologia microbiana. No entanto, alguns aspectos semiológicos merecem atenção especial:
– A presença de expectoração ferruginosa com a pneumonia pneumocócica, caracterizada pelo seu início brusco e na qual a presença de febre alta e calafrios deve fazer suspeitar a presença de bacteriemia, que pode agravar o prognóstico.
– A presença de expectoração esverdeada, mais frequente nas infecções por H. influenzae, ou cor de chocolate, nas infecções por K. pneumoniae.
– A presença de infiltrados bolhosos, geralmente associada à infecção por S. aureus, muitas vezes ocorrendo no contexto de bacteriemia por este agente.
– Os infiltrados broncopneumúnicos ou intersticiais, mais frequentes nas pneumonias virais ou por agentes intracelulares (Chlamydophila spp., Legionella pneumophila, Mycoplasma pneumoniae, C. burnetti ou, no contexto da infecção por VIH, P. jiroveci), que se caracterizam, também, por uma apresentação subaguda, na qual as queixas respiratórias são precedidas de sintomatologia geral ou gripal, na qual se salientam as mialgias.
– A presença de infiltrados heterogéneos de predomínio apical, especialmente quando associados a cavitação, que impõem a pesquisa de bacilos resistentes a ácido-álcool na expectoração, atendendo à elevada prevalência de tuberculose em Portugal.
A idade de apresentação é, também, relevante, quanto ao tipo de agente etiológico envolvido. O Mycoplasma pneumoniae, que, quando sintomático e envolvendo as vias aéreas inferiores, se apresenta geralmente com início insidioso, sem repercussão importante sobre o estado geral do doente, pode ser causa frequente de PAC em adultos jovens, ocorrendo, muitas vezes, em pequenos surtos epidémicos familares. A idade afecta, também, o prognóstico, sendo a idade superior a 65 anos ou abaixo dos 5 anos considerada como um factor independentemente preditivo de mortalidade e que deve ser tomado em conta na ponderação quanto à necessidade de internamento. Nos idosos, a PAC pode manifestar-se, apenas, por estado confusional, prostração, recusa alimentar e/ou descompensação de doença associada. Nos idosos, nos residentes em lares e nos doentes com alterações graves do estado de consciência, a possibilidade de pneumonia de aspiração deve ser considerada.

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Pneumonia Adquirida na Comunidade

Amplamente utilizada na prática e investigação clínicas, a designação “pneumonia adquirida na comunidade” (PAC), não corresponde a uma entidade nosológica com características clínicas e microbiológicas específicas. Estudos epidemiológicos recentes, baseados em técnicas de biologia molecular, indicam que mais de metade dos casos incluídos num ensaio clínico de PAC são de etiologia virai Neste contexto, e face às actuais preocupações com a resistência microbiana, resultante, em grande parte, da utilização não justificada de antibióticos, é de salientar a importância do diagnóstico correcto da pneumonia com base em elementos de ordem clínica e laboratorial, particularmente através da radiografia do tórax.
A grande importância actual das infecções do tracto respiratório, incluindo a pneumonia, como factor condicionante da prescrição antibiótica, particularmente em regime ambulatório, justifica a multiplicidade de recomendações (guidelines) para o seu tratamento.
Esta multiplicidade decorre das diferenças quanto aos antibióticos recomendados para o tratamento de um conjunto de agentes etiológicos que é, essencialmente, semelhante para as diferentes regiões geográficas que são abrangidas, e que se baseia em considerações relativas à susceptibilidade desses agentes aos antibióticos mais frequentemente prescritos. Neste panorama, as recomendações publicadas pela ERS (European Respiratory Society), que apoiam, no essencial, as publicadas pela SPP (Sociedade Portuguesa de Pneumologia), são consideradas como as mais ajustadas ao tratamento da PAC no nosso país.

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Diagnóstico (Microbiologia)

Para além dos elementos clínicos e epidemiológicos, a realização de telerradiografia do tórax (PA e perfil) é um elemento imprescindível para o diagnóstico, permitindo:
– Verificar a existência de infiltrados de novo, confirmando ou infirmando o diagnóstico de pneumonia e permitindo, designadamente, excluir as situações de bronquite aguda, consideravelmente mais frequentes do que a PAC e para as quais a antibioterapia não está, por princípio, recomendada, ou das exacerbações de bronquite crónica em doentes com DPOC, para as quais se preconizam recomendações terapêuticas específicas.
– Avaliar a extensão do processo, o padrão imagiológico (condensação, infiltrado broncopneumonia), pneumonia intersticial), existência de cavitação e/ou derrame, como elementos para a decisão quanto à necessidade de internamento e com valor para suporte da decisão quanto à antibioterapia empírica.
Já o exame microbiológico da expectoração revela-se de menor utilidade e não está recomendado o seu uso sistemático, a não ser apenas quando existem factores de risco para MM RA 12 ou nos doentes que necessitem de internamento em UCI, nos quais a gravidade da situação clínica impõe uma pesquisa mais agressiva do agente etiológico e da sua susceptibilidade aos antibióticos. Nos doentes tratados em regime de internamento, devem ser colhidas hemoculturas antes do início da medicação antibiótica. No entanto, as hemoculturas apenas são positivas em até 15% dos doentes com PAC, e cerca de 10% dos doentes com PAC pneumocócica, sendo a sua negatividade influenciada pelo tempo da colheita relativamente ao início da antibioterapia.
A pesquisa de antigénios de Legionella na urina está recomendada em doentes com pneumonia grave e com contexto epidemiológico sugestivo. Apenas permite o diagnóstico de infecções por serogrupo 1, que é causa de cerca de 80% das infecções por Legionella.
A pesquisa de antigénio pneumocócico na urina tem uma elevada sensibilidade e especificidade em doentes bacteriémicos e mantém-se quase sempre positiva até 3 dias após o início da antibioterapia adequada, podendo ser útil em doentes com pneumonia grave tratados em regime de internamento. No entanto, não permite a avaliação da susceptibilidade do pneumococo aos antibióticos, e a positividade do teste pode persistir até, pelo menos, 6 meses após a pneumonia, em até 10% dos doentes, pelo que deve ser valorizada em função dos antecedentes do doente e não deve substituir-se à colheita de produtos para os exames culturais.
A presença de leucocitose com neutrofília é um elemento indicativo de etiologia bacteriana, mas não permite a exclusão de etiologia virai. Do mesmo modo, a elevação da proteína C reactiva pode ser um elemento indicativo, mas não específico da etiologia bacteriana, embora possa ser útil na avaliação da resposta à terapêutica e da necessidade de reconsiderar o esquema de antibioterapia nestas situações.

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Epidemiologia (Pneumonia adquirida na comunidade)

A incidência global é de cerca de 5-12/1000 pessoas/ano, e mais elevada nas idades extremas. Estima-se que cerca de 80% das PAC podem ser tratadas no ambulatório, mas a dificuldade em obter dados microbiológicos não permite excluir, em absoluto, que estas estimativas se baseiem estritamente em casos de pneumonia aguda bacteriana. As estatísticas da OMS (Organização Mundial de Saúde) referentes a Portugal (2006) apresentam a pneumonia (não necessariamente PAC) como a quarta causa individual de mortalidade, considerando todas as idades, e a única causa infecciosa de mortalidade entre as 10 principais causas. Noutra perspectiva, as estatísticas apontam para 7-11 casos/1000 habitantes/ano, resultando em 2,25 internamentos por 1000 habitantes. A taxa de mortalidade hospitalar global foi de 17,1% em 1997, elevando-se para 21,6% em doentes com mais de 65 anos. A incidência de PAC apresenta variações sazonais que podem variar de acordo com o agente envolvido (ver “Microbiologia”), mas apresentando, globalmente, picos durante os meses mais frios.

meningite 180x180 - Patogénese (Meningite)

Patogénese (Meningite)

A maioria dos casos de MAB ocorrem por via hematogénica, no contexto de uma bacteriemia com origem num foco locorregional ou a distância. No caso das meningites pneumocócicas e meningocócicas que, no seu conjunto, constituem mais de 60% das meningites do adulto adquiridas na comunidade, o foco é pulmonar ou das vias aéreas superiores (designadamente do foro ORL).
O processo inflamatório meníngeo pode coexistir com inflamação das estruturas cerebrais (meningoencefalite) e acompanha-se, geralmente, de uma síndrome de resposta inflamatória sistémica que, apesar de não ter particularidades específicas, é, por regra, exuberante e de instalação rápida nas situações de MAB.
A penetração das bactérias através da BHE é um processo mal esclarecido que parece ser dependente do agente. No caso do pneumococo, a penetração poderá envolver receptores para o factor de activação plaquetária (PAF), enquanto que, no caso da listeria, a captação directa do agente por parte das células endoteliais poderá ser o mecanismo preferencial. Sendo o LCR um meio pobre em elementos relacionados com a imunidade humoral e celular, a multiplicação local das bactérias dá-se livremente e de forma rápida, atingindo elevadas concentrações antes que se desencadeie uma resposta inflamatória sistémica suficientemente intensa para permitir que os glóbulos brancos possam atravessar a barreira, por meio de diapedese. Esta passagem é facilitada pelo aumento da permeabilidade da BHE, que ocorre em conjunto com uma série de eventos inflamatórios, que incluem o aumento da permeabilidade vascular e a instalação de edema vasogénico do parênquima cerebral, resultando no aumento da pressão intracraniana. Esta está na base da sintomatologia clínica característica e, em conjunto com a perda da auto-regulação vascular cerebral, pode causar alterações do estado de consciência e lesões tecidulares isquémicas ao nível do cérebro e das estruturas periféricas, incluindo a esfera ORL, de que podem resultar sequelas permanentes.
Mais raramente, a MAB pode ser consequência da invasão bacteriana a partir de um foco infeccioso contíguo às meninges, intracraniano ou vertebral, como será o caso da maioria das meningites de etiologia estafilocócica, ou, eventualmente, a partir de inoculação directa de bactérias da pele durante procedimentos invasivos de diagnóstico e terapêutica.

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Tratamento no Hospital – Duração da Terapêutica

Variável de acordo com os fármacos utilizados. Em última análise, a decisão sobre a duração do tratamento deve basear-se no julgamento médico sobre a evolução clínica do doente, tendo em conta que o prolongamento para além das 2 semanas não acarreta benefícios para o doente e aumenta o risco de selecção de estirpes multirresistentes.

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Tratamento no Hospital – Alteração da Antibioterapia Inicial

A antibioterapia deve ser revista às 48-72 horas, de acordo com a evolução clínica e laboratorial do doente, ou em conformidade com a susceptibilidade dos isolamentos ou de outros dados microbiológicos, caso existam. Neste contexto, a mudança da antibioterapia em curso para um regime com espectro de acção mais adequado, sempre que a sensibilidade do agente o justifique, é aconselhável, à luz dos princípios gerais de antibioterapia. A antibioterapia inicial pode ser alterada para medicação administrada por via oral, desde que a melhoria da situação clínica do doente o justifique. Para o efeito, devera, sempre que possível, ser preferida a utilização de antibióticos dos mesmos grupos utilizados para a medicação e.v.

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Tratamento no domicílio – Reavaliação do doente

O doente deve ser reavaliado clinicamente ao fim de 48 a 72 horas, com reapreciação da necessidade de internamento e da duração inicialmente proposta para o tratamento.
A persistência das alterações clínicas e/ou funcionais, aliada à ausência de melhoria significativa nos parâmetros de resposta inflamatória, dos quais a proteína C reactiva é o mais sensível, devem levar à ponderação da necessidade de alterar a terapêutica, tendo em conta os aspectos clínicos e epidemiológicos do doente, incluindo as terapêuticas antibióticas anteriores. A ausência de melhoria radiológica não deve ser, só por si, um factor de mudança, embora o agravamento da extensão das lesões deva fazer reconsiderar a adequação da antibioterapia em curso.

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Tratamento no domicílio – Duração da antibioterapia

Variável de acordo com os fármacos utilizados. Em última análise, a decisão sobre a duração do tratamento deve basear-se no julgamento médico sobre a evolução clínica do doente, tendo em conta que o prolongamento para além das 2 semanas não acarreta benefícios para o doente e aumenta o risco de selecção de estirpes multirresistentes.