Artigos

indigestion 1 180x180 - Terapêutica (Dispepsia Funcional)

Terapêutica (Dispepsia Funcional)

As armas terapêuticas utilizadas na DF são direccionadas às alterações fisiopatológicas e diferenciam-se atendendo aos subgrupos classificados com base no sintoma dominante.

alimentos infeccionam tatuagem 2 180x180 - Da Litíase Assintomática à Indisposição Pós-Prandial

Da Litíase Assintomática à Indisposição Pós-Prandial

A disfunção da vesícula biliar, que está associada frequentemente à litíase, pode ter manifestações clínicas despertáveis pela ingestão de alimentos, designadamente refeições gordurosas, ovos, laranjas, fritos e outros que a variabilidade individual evidencia. Referida como enfartamento pós-prandial, náuseas, azia, desconforto no epigastro/hipocôndrio direito, a inconstância e a aparente benignidade destas manifestações foi, na era pré-ecografia, muitas vezes rotulada como uma forma de “dispepsia”, aprendendo os médicos e os doentes a conviver com esse diagnóstico.
A grande acessibilidade à ecografia passou o diagnóstico de litíase da vesícula para fases da história natural muito precoces, antes do aparecimento dos sintomas ou enquanto paucisintomática. É neste contexto que se centra a ponderação da indicação para colecistectomia (quando e como), para as outras formas de tratamento ou apenas para aconselhamento não interventivo.
Na fase assintomática, não se demonstrou vantagem significativa que justifique a indicação sistemática para cirurgia, embora a maioria dos estudos comparativos tenham sido feitos antes da colecistectomia laparoscópica. Alguns trabalhos são favoráveis à colecistectomia em populações de risco aquando da possibilidade de colecistite aguda por terem, nestas situações, maior probabilidade de complicações (por exemplo, diabetes, pré-transplante renal) ou nas doenças com maior incidência de carcinoma da vesícula associado à litíase (por exemplo, quisto do colédoco, doença de Caroli, drenagem anómala dos canais pancreáticos, adenomas da vesícula, vesícula de porcelana, outros). Na esferocitose hereditária, na talassemia, na obesidade mórbida e, em geral, quando os doentes vão ser submetidos a uma intervenção cirúrgica abdominal, está aconselhado fazer a colecistectomia na mesma operação, se houver evidência de litíase.
Nesta fase assintomática, os doentes devem ser informados que, 3-4 em cada 10 passarão a ser sintomáticos ou terão um episódio agudo infeccioso nos 10 anos subsequentes.
O risco de desenvolver carcinoma da vesícula, nos doentes com litíase é geralmente baixo, 0,5-3%, aumentando 10 vezes se os cálculos forem >3 cm, o que normalmente só ocorre após uma longa duração da doença.
A associação de litíase (com ou sem sintomas) a pólipos vesiculares pode ser uma condicionante para propor a colecistectomia, com a intenção de prevenção oncológica.
Na fase sintomática, 1 em cada 5 doentes corre o risco de vir a sofrer cólicas biliares ou colecistites agudas, pelo que deve ser aconselhado a programar a colecistectomia.
A relação causa-efeito entre a litíase da vesícula e a síndrome clínica que descrevemos deve ser objectivada, principalmente quando surgem sintomas que podem indiciar outras doenças funcionais do tubo digestivo proximal (por exemplo, doença do refluxo, úlcera péptica, gastrite) ou a perturbações funcionais do cólon (por exemplo, doença diverticular) que podem estar associadas (por exemplo, tríade de Saint) – a colecistectomia só vai controlar os sintomas dependentes do mau funcionamento da vesícula, embora muitas vezes os doentes melhorem da sintomatologia acompanhante.

psicoterapia 180x180 - Medidas psicológicas

Medidas psicológicas

As medidas de psicoterapia de comportamento têm sido utilizadas com resultados positivos na síndrome do intestino irritável.
Atendendo ao carácter funcional da dispepsia, têm sido testadas, em doentes com dispepsia refractária, técnicas de psicoterapia com resultados positivos.
Os antidepressivos tricíclicos em baixas doses podem ser utilizados nestes doentes, bem como as benzodiazepinas, nomeadamente quando se manifestam estigmas de ansiedade ou depressão.


Warning: DOMDocument::loadHTML(): htmlParseStartTag: invalid element name in Entity, line: 3 in /home/medicina/public_html/wp-content/plugins/wpex-auto-link-titles-master/wpex-auto-link-titles.php on line 30
Dispepsia 180x180 - Terapêutica de erradicação do Helicobacter pylori (Hp)

Terapêutica de erradicação do Helicobacter pylori (Hp)

A erradicação do Hp tem resultados francamente diferentes quando é utilizada em doentes com dispepsia não investigada e nos doentes com DF. Uma meta-análise recente demonstra que para se obter um sucesso terapêutico é necessário erradicar 7 doentes com dispepsia não investigada e 12-15 doentes com DF. Esta diferença resulta da grande eficácia da erradicação do Hp na úlcera péptica, patologia englobada na dispepsia não investigada e já excluída na DF.
Em conclusão, a erradicação do Hp pode justificar-se na dispepsia não investigada, sendo cost-effective, e é controversa na DF, podendo, ainda assim, ser cost-effective.
Na dispepsia não investigada, em doentes com menos de 45 anos e na ausência de sintomas de alarme, pode ser seguida uma estratégia de test and treat. Nos países com baixa prevalência de infecção por Hp (<20%) a terapêutica empírica com IBP ou uma estratégia test and treat são opções equivalentes nestes doentes. Em doentes com idade superior a 45 anos e/ou sinais de alarme deve ser efectuada endoscopia digestiva alta (Consenso de Maastricht III). A indicação da erradicação Hp na DF baseia-se em pressupostos fisiopatológicos, epidemiológicos e de eficácia terapêutica. Embora os estudos iniciais demonstrassem uma maior prevalência do Hp na população com DF, estudos mais recentes não têm suportado definitivamente esta associação. Estudos randomizados, duplamente cegos e controlados que avaliavam a eficácia da terapêutica anti-Hp na DF demonstraram resultados opostos. O estudo realizado por McColl, com 318 DF randomizados para erradicação do Hp ou omeprazole durante 14 dias revelou que ao fim de 1 ano, 21% dos DF que fizeram erradicação tinham um score sintomático de 0/1 comparativamente a 7% nos doentes submetidos a omeprazole. Ao invés, o estudo OCAY, com metodologia semelhante, não revelou diferença significativa ao fim de 1 ano, na percentagem de doentes com score sintomático (0/1), entre os DF que fizeram erradicação ou omeprazole. O estudo ORCHID também não encontrou diferença significativa no score sintomático ao fim de 1 ano nos doentes submetidos a erradicação comparativamente ao placebo. Em resumo, em onze publicações que avaliam a eficácia da erradicação do Hp, nove não mostram benefício e duas revelam um ganho terapêutico de 9% e 14%. Em conclusão, apesar da terapêutica anti-Hp demonstrar numa pequena minoria de DF, uma melhoria sustentada pode ser uma opção no tratamento da DF. Assim, pode ser utilizada abinitio nos DF tipo úlcera e nos casos resistentes à terapêutica farmacológica na DF tipo dismotilidade. Esta opção é sobretudo útil em indivíduos jovens e com esquemas simples e bem tolerados, como é o caso das terapêuticas triplas de 1 semana. Outra justificação para esta opção baseia-se no facto do Hp ser considerado um patogénio associado à úlcera péptica e ter sido classificado pela OMS como um carcinogénio de tipo I, podendo eventualmente reduzir-se nesta população o risco destas duas patologias.

dolor abdominal 180x180 - Dispepsia Funcional

Dispepsia Funcional

A dispepsia deve ser definida como “uma dor ou desconforto persistente ou recorrente localizada ao abdómen superior, que pode ou não estar relacionada com as refeições”.
Constitui uma das queixas mais frequentes nos países ocidentais, salientando-se que na população geral 20-40% dos indivíduos têm queixas dispépticas, com uma incidência anual de cerca de 1%.
É causa de grande consumo de cuidados médicos, representando 2-3% das consultas de clínica geral e 20-40% das consultas de gastrenterologia.
A dispepsia, ao conduzir ao absentismo profissional, ao consumo de medicação e ao recurso a exames complementares de diagnóstico, representa elevados custos económicos.
Diversos estudos realizados em doentes dispépticos têm revelado que a doença do refluxo gastresofágico (DRGE) é encontrada em 20-25%, a úlcera péptica em 15-20% e o cancro gástrico em menos de 2% destes doentes.
Cerca de 50%-60% dos doentes com dispepsia crónica ou recorrente que foram investigados sumariamente com exames laboratoriais, endoscopia digestiva alta e ecografia não têm evidência de qualquer lesão estrutural que justifique a sua sintomatologia. Estes doentes com dispepsia na ausência de anormalidades morfológicas e/ou bioquímicas são rotulados de dispépticos funcionais.
Assim importa diferenciar a dispepsia não investigada da dispepsia funcional (DF) que exige a realização de endoscopia digestiva alta sem alterações e/ou gastropatia.
Foram definidos os critérios de Roma, usados para o diagnóstico de DF:
– Dor abdominal ou desconforto crónico ou recorrente no abdómen superior; duração maior de 1 mês, com presença de sintomatologia em mais de 25% do tempo.
– Ausência de clínica (sintomas de alarme: hematemeses, melenas, icterícia, emagrecimento, disfagia), bioquímica, sinais endoscópicos ou ecográficos que expliquem uma doença orgânica.
-Subcritérios para dispepsia tipo úlcera e dismotilidade.
Em algumas classificações ainda existe um subgrupo de dispepsia tipo refluxo que nem sempre é considerada, pois na maioria dos casos corresponde a doença do refluxo gastresofágico.
Contudo, um estudo recente revelou que nos doentes com DF existia sobreposição na sintomatologia entre estes subgrupos, sendo possível integrar apenas 12% dos doentes, exclusivamente num subgrupo. Actualmente, devido ao pressuposto anterior, tem-se optado pela classificação com base no sintoma dominante.
A DF é uma entidade nosológica muito heterogénea do ponto de vista físiopatológico, onde podem concorrer vários factores.