Artigos

vespa 180x180 - Alergia a Veneno de Himenópteros

Alergia a Veneno de Himenópteros

As reacções alérgicas à picada de insectos ocorrem com frequência, sendo por vezes graves e potencialmente fatais. Em Portugal, os insectos habitualmente envolvidos pertencem à ordem dos himenópteros, famílias Vespidae (vespas – Vespula spp.) e Apidae (abelhas – Apis meliffera).
O veneno dos himenópteros é constituído por enzimas, péptidos tóxicos e aminas vasoactivas, sendo muitos destes componentes proteínas com potencial alergénico, responsáveis pelas reacções alérgicas em indivíduos sensibilizados.
A reacção local é uma reacção normal que se caracteriza por dor, eritema e edema no local da picada e dura algumas horas. Quando os sinais inflamatórios se estendem por uma área superior a 10 cm de diâmetro, sempre em contiguidade com o local da picada, passa a designar-se reacção local extensa. Esta reacção habitualmente tem uma duração superior a 24 horas.
A reacção sistémica pode surgir de forma generalizada ou pode ocorrer de forma localizada, mas numa região distante do local da picada. Pode manifestar-se por alterações cutâneas (prurido, eritema, urticária e angioedema), que são as mais frequentes, gastrintestinais (náuseas, vómitos, cólicas e diarreia), respiratórias (edema da glote, broncospasmo) e cardiovasculares (hipotensão e choque), podendo levar à morte.
O mecanismo subjacente é IgE mediado. Os doentes com reacções sistémicas graves tendem a repetir as mesmas manifestações clínicas em picadas subsequentes, sendo então um grupo em particular risco de vida.
O primeiro passo na abordagem diagnostica consiste na realização da história clínica.
Deve-se tentar identificar o insecto responsável, de acordo com as características referidas anteriormente e feita uma estimativa do risco de reacção grave futura, de acordo com conhecimentos existentes sobre a história natural da doença. Desta forma, os doentes com reacções locais, tóxicas ou atípicas não têm indicação para prosseguir a investigação. Seguidamente procede-se à realização de testes cutâneos e/ou doseamento de IgE específica, o que permite confirmar ou não a mediação por IgE e identificar de forma precisa o veneno responsável.
A terapêutica imediata consiste na aplicação de compressas frias que reduzem o edema nas reacções locais que, no entanto, com frequência, regridem espontaneamente; analgésicos e/ou anti-histamínicos orais podem aliviar a dor e o prurido.
Uma reacção local extensa trata-se com a aplicação de compressas frias, analgésicos e/ou anti-histamínicos e corticóides locais ou orais durante 3 a 4 dias. No caso de ocorrer num membro, deve-se proceder à elevação do mesmo.
Numa reacção sistémica, deve-se administrar adrenalina, seguida de anti-histamínicos e corticóides orais ou por via parentérica (ver “Anafilaxia”). Se a picada ocorreu num membro, deve ser colocado um garrote a montante com o objectivo de reduzir a absorção do alergénio. Os restantes cuidados a ter são aqueles normalmente aplicáveis a qualquer doente com choque anafiláctico. Após estabilização, o doente deve ser mantido em vigilância durante algumas horas (para os casos mais ligeiros), até 24 horas (para os casos mais graves).

Hornet vespa 180x180 - Alergia a Veneno de Himenópteros II

Alergia a Veneno de Himenópteros II

As reacções tóxicas e retardadas requerem terapêutica sintomática apropriada que depende do tipo, gravidade e da evolução da reacção.
Após a fase imediata, nas picadas de vespa podem surgir complicações infeciosas cutâneas, relacionadas com os locais frequentados por estes insectos.
A terapêutica de longo prazo apresenta três vertentes: medidas de evicção, kit para auto-administração de adrenalina (já referidos) e vacinação antialérgica.
Existem medidas que podem ser indicadas e que permitem minimizar a exposição a estes insectos:
— Nunca andar descalço especialmente em relvados;
— Evitar o uso de roupa larga com cores brilhantes ou com padrões florais;
— Evitar perfumes ou cosméticos com cheiros activos quando estiver em meio rural no campo ou em jardins;
— Evitar locais onde estes insectos costumam estar, jardins com flores, árvores de fruto, troncos caídos (onde as vespas costumam construir os ninhos);
— Evitar beber e comer doces (compotas) e frutas ao ar livre;
— Evitar caixotes e contentores de lixo;
— Usar capacete e luvas quando andar de bicicleta ou moto, inspeccionar o carro antes de entrar e manter as janelas fechadas;
— Não enxotar as abelhas ou vespas; se for atacado, proteja a cara com os braços ou com uma peça de vestuário;
— Cuidado quando fizer ginástica/exercício ao ar livre porque o suor atrai estes insectos;
— Cuidado ao fazer jardinagem; mantendo os braços, cabeça e corpo o mais coberto possível;
— Andar sempre com o seu estojo de emergência, não o deixando no carro ou em casa.

A vacinação antialérgica tem indicação absoluta em pacientes com reacção sistémica grave mediada por IgE, tendo em conta que, tal como foi referido, existe um elevado risco de reacção grave numa picada subsequente. Em contrapartida, não está recomendada em pacientes com reacção sistémica ligeira, uma vez que, nestes casos, a história natural da doença é mais favorável, excepto quando existe um elevado grau de exposição (por exemplo, apicultores e seus familiares). Não tem qualquer indicação em reacções não mediadas por IgE ou nas reacções locais extensas.
A alergia a himenópteros é uma situação relativamente frequente, ainda pouco divulgada na comunidade médica, podendo relacionar-se com mortalidade.
Continuam a ocorrer casos fatais relacionados com picadas de himenópteros, sendo que o conhecimento anterior desta situação não levou à referência para centros especializados.
O diagnóstico é simples, estando disponíveis meios terapêuticos e profilácticos eficazes.
Só assim é possível uma actuação correcta perante estes doentes, que passa necessariamente pela referência a consultas de Imunoalergologia.

upload 20140616131301vacinahpv1021mb100314 180x180 - Indicações (Vacinas Antialérgicas)

Indicações (Vacinas Antialérgicas)

Pacientes com reacções sistémicas relacionadas com as picadas de himenópteros (indicação absoluta) e com asma e/ou rinoconjuntivite alérgica relacionadas com sensibilização a alergénios cuja vacinação seja segura e eficaz, comprovada por estudos em dupla ocultação, controlados com placebo. Como extractos alergénicos usam-se os ácaros, animais de companhia (gato), pólenes, fungos (Alternaria e Cladosporium) e venenos de himenópteros. De entre os alergénios emergentes referimos a evidência que suporta o recurso a vacinas antialérgicas em doentes com clínica de anafilaxia relacionada com o látex e na alergia alimentar.