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Cavidade Oral (Complicações da RT)

Os dentes, se existentes, estão mais sujeitos a desenvolver cáries, pela redução do fluxo salivar e consequente diminuição no aporte local de flúor. Se a isto juntarmos uma mucosa oral em lenta mas constante atrofia, pela alteração no tecido vascular-conjuntivo, que progressivamente vai deixando expostas zonas dos dentes não recobertas de esmalte e, consequentemente, mais sensíveis, rapidamente se torna evidente que este é um dos pontos de maior morbilidade, nesta localização.
O tecido ósseo não manifesta com frequência alterações devidas às radiações. As células que nele existem, osteoclastos e osteoblastos, mantêm uma actividade vegetativa inalterada e, mercê de um tempo de duplicação excepcionalmente lento, raramente demonstram de uma forma evidente as lesões radicas. Ocorre no entanto um processo, lento mas constante, de rarefacção óssea.
Uma das complicações mais temidas ocorre no caso de uma infecção nas gengivas progredir para o osso ou a degradação de uma peça dentária impor a sua extracção, a osteonecrose. Aquelas situações criam a necessidade de replicação de osteoblastos, para reconstruir o osso destruído, evidenciando-se, então, a lesão no genoma e a insuficiência do tecido para a sua própria conservação. O resultado é a formação de sequestros ósseos cuja sintomatologia álgica requer, por vezes, a remoção cirúrgica.
Mais uma vez, as medidas preventivas são essenciais. Uma boa higiene oral e aplicação local de flúor assumem um papel fundamental. O risco de osteonecrose é reduzido se antes do início da RT se proceder à extracção de peças dentárias em mau estado ou ao tratamento conservador se for possível, e a um acompanhamento pós-terapêutico, de modo a corrigir rapidamente qualquer alteração local, cárie ou infecção periodontal. No caso de serem necessárias extracções, devem ser usadas técnicas atraumáticas. A osteoradionecrose é mais frequente na mandíbula que no maxilar superior, mas no geral e uma ocorrência pouco frequente, atingindo 2 a 5% dos doentes, não ocorrendo de todo em desdentados totais.

Radioterapia 180x180 - Radioterapia

Radioterapia

A RT (radioterapia) é uma das modalidades fundamentais no tratamento do cancro, sendo uma especialidade multifacetada. A sua prática decorre das ciências médicas e, mais especificamente, do conhecimento amplo da oncologia. Está claramente associada a outras ciências com amplo desenvolvimento, como são a Física (das radiações) e a (radio)Biologia. Tendo já decorrido mais de 100 anos desde a descoberta da radioactividade, e mais de meio século desde o início da sua aplicação clínica sistematizada, a RT é ainda uma especialidade insuficientemente divulgada em Portugal, e por vezes ignorada, não obstante ser um dos pilares no manuseamento do cancro.
Por definição, RT é o uso controlado de radiações ionizantes para fins terapêuticos, principalmente de neoplasias malignas. As radiações dizem-se ionizantes por levarem à formação de iões nos meios sobre os quais incidem, induzindo modificações mais ou menos importantes nas moléculas nativas.
Apesar de a administração transcutânea – RT externa – ser a que é vulgarmente identificada com esta especialidade, existem outras formas de administrar radiações ionizantes: RT intracavitária e endoluminal (as fontes radioactivas são colocadas em cavidades naturais no organismo (por exemplo, útero, esófago); RT intersticial (as fontes radioactivas são introduzidas de forma cruenta nos tecidos (por exemplo, língua, Iábio, pele); plesioterapia (as fontes radioactivas são simplesmente colocadas sobre as lesões (por exemplo, lesões superficiais da pele ou mucosas).
Mesmo a RT externa sofreu modificações dramáticas desde os raios X de baixas energias (até 400 kVp), passando pela radiação gama do Cobalto-60, até aos raios X de energias entre 4 e 25 MV, produzidos pelos modernos aceleradores lineares. Estes feixes de radiação electromagnética e o uso de feixes de electrões permitem administrar doses terapêuticas em volumes muito precisos.

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Sangue (Complicações da RT)

O sangue é o tecido que, em conjunto com a pele, mais frequentemente é incluído nos campos de tratamento, sendo-o nas suas duas formas: a medula óssea, onde é produzido, e a rede vascular, onde circula. Os efeitos são diferentes mas complementares e quase sempre contribuem para uma descida mais ou menos marcada de uma ou várias das séries (branca, vermelha ou plaquetária).
A irradiação da medula óssea gera alterações pelo mesmo mecanismo explicado para os epitélios como o da pele. As células pluripotenciais de uma ou várias das séries medulares são mais ou menos lesadas, dependendo do volume de medula irradiado e sua contribuição relativa para a produção total, havendo ainda grandes variações individuais entre as respostas das diferentes séries.
A acção sobre as células circulantes incide principalmente sobre os leucócitos, mais particularmente os linfócitos. Estas células exibem uma resposta às radiações quase imediata, devido a uma sensibilidade extrema, cujo mecanismo não está ainda totalmente esclarecido. As séries plaquetária e vermelha, quando em circulação, não são particularmente sensíveis às radiações.
As alterações mais frequentemente encontradas são as de descida das contagens celulares nomeadamente a leucopenia, sem alterações na fórmula, eventualmente anemia e raramente trombocitopenia. A ocorrência de qualquer destas alterações pode levar, se os valores descerem a níveis tão baixos que ponham em risco a vida, à suspensão da RT Esta ocorrência não é assim tão frequente, sendo a regra a persistência de valores baixos mas toleráveis, com recuperação total após conclusão do tratamento. A gravidade destas alterações é sempre superior quando a RT é efectuada após ou em simultâneo com a administração de citostáticos, testemunhando o mecanismo de acção idêntico das duas formas de tratamento.

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Tórax (Complicações da RT)

A este nível, e para além da pele, apenas o esófago e a traqueia evidenciam uma resposta imediata às radiações, o primeiro através de ardor pré-esternal desde a segunda semana de tratamento, tal como as mucosas da cavidade oral, o segundo por sinais e sintomas de traqueíte. O tratamento da esofagite passa pela administração de antiácidos ou protectores da mucosa (por exemplo, gel de sucralfate) e eventualmente de analgésicos, tendo o cuidado de retirar da dieta os potenciais agressores (muito quente, muito frio, muito ácido, álcool). A traqueíte nunca é muito evidente, podendo ser controlada apenas com recurso à inalação de vapor de água ou administração de anti-inflamatórios.
No caso particular da RT de tumores da mama, devido à possibilidade de sobreposição de campos ao nível do vértice do pulmão, existe uma maior probabilidade de aparecimento de uma lesão a esse nível. Essa lesão é por regra assintomática, podendo evidenciar-se um quadro de pneumonite aguda, controlável com antibióticos e corticóides em doses elevadas. E frequente a persistência de uma zona de fibrose, assintomática, visível na radiografia simples do tórax, numa grande percentagem das doentes submetidas a este tratamento, mesmo não tendo ocorrido a pneumonite aguda.