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Ansiolíticos e Hipnóticos II

Além do potencial de abuso e dependência, há risco de potenciação dos efeitos do álcool e outros agentes sedativos; outros efeitos secundários indesejáveis incluem o compromisso do desempenho psicomotor e das funções mnésicas. A miastenia gravis, a insuficiência respiratória grave e o risco prévio de abuso constituem contra-indicação para o uso destes compostos. Por seu turno, o espectro de indicações psiquiátricas é alargado, incluindo quadros de ansiedade e/ou insónia de etiologia diversa, bem como estados de agitação psicomotora (constitui excepção a agitação associada à confusão mental ou delirium, em que ocorre depressão da vigilidade susceptível de ser agravada pelas benzodiazepinas; neste tipo de situações, há indicação para o uso de benzodiazepinas apenas em síndromes de etiologia alcoólica).
Dado o risco de abuso e dependência, existem normas internacionalmente aceites que estipulam o uso por períodos curtos (embora renováveis) de tratamento, a necessidade de monitorização clínica e o ajustamento individual da dose e esquema posológico.
Entre os medicamentos deste grupo mais usados como ansiolíticos podem citar-se o diazepam, o bromazepam e o lorazepam. A utilização de benzodiazepinas no tratamento da insónia é marcada pela introdução do flurazepam, no início dos anos 70, e dos hipnóticos benzodiazepínicos de semivida curta, como o triazolam e o temazepam, na década de oitenta.
Mais recentemente, a introdução dos mencionados hipnóticos “não benzodiazepínicos” veio alargar a controvérsia em torno da utilização das benzodiazepinas no tratamento da insónia. Sucede que os estudos poligráficos mostram que as benzodiazepinas produzem redução das fases 3 e 4 do sono lento e um aumento da fase 2; os efeitos sobre o sono REM traduzem-se num aumento da latência e numa redução da duração total ao longo da noite; o aumento do tempo total de sono é conseguido, predominantemente, pela diminuição da latência e redução das reações de alerta e despertar. A administração crónica acompanha-se do desenvolvimento de tolerância para muitos destes efeitos.
Contudo, a redução do sono lento profundo é um efeito duradouro, e traduz-se numa perda da “qualidade” do sono. Já a ocorrência de insónia rebound, após a suspensão do fármaco, ocorre preferencialmente com as benzodiazepinas de semivida curta.

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Terapêuticas Psicofarmacológicas

A era da moderna psicofarmacologia inicia-se nos anos 50 do século XX com a descoberta dos primeiros antidepressivos, neurolépticos e tranquilizantes benzodiazepínicos, assistindo-se na década seguinte a uma rápida expansão do uso dos psicofármacos, associada a um grande optimismo quanto ao seu alcance terapêutico. Desde então tem-se assistido a um processo contínuo que alterou profundamente a teoria e a prática psiquiátricas.
Na verdade, a psicofarmacologia modificou o panorama da psiquiatria, aumentando dramaticamente o sucesso terapêutico (tanto a eficácia terapêutica como o número de casos tratáveis), diminuindo a necessidade de internamento e inclusivamente facilitando intervenções de tipo psicoterapêutico e psicossocial. Noutro plano, tornou inúmeras situações psiquiátricas acessíveis ao médico não especialista, que passou a lidar com situações que noutras condições escapariam aos cuidados médicos ou seriam desnecessariamente referidas para serviços psiquiátricos.
Hoje em dia, a maioria das prescrições de psicofármacos são oriundas da clínica geral, sucedendo também que os psicofármacos têm indicações fora do âmbito da psiquiatria.
Neste contexto, afigura-se evidente que o manejo dos psicofármacos deve integrar a competência médica geral. Neste breve capítulo apresentamos uma revisão de aspectos farmacológicos e terapêuticos que consideramos relevantes para uma boa utilização psicofármacos, especialmente por parte do decisor terapêutico não especialista.

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Conclusões (Terapêuticas Psicofarmacológicas)

Importa recordar que a evolução da psicofarmacologia é indissociável do extraordinário desenvolvimento das neurociências, com múltiplas áreas de aplicação à psiquiatria.
Esta evolução não tirou lugar às modalidades de intervenção psicológica, psicossocial e social, mas obrigou à redefinição dos respectivos papéis no quadro de uma disciplina que definitivamente se assumiu como um ramo da medicina e uma especialidade médica por direito próprio.
Neste contexto, a psicofarmacologia tornou-se uma área de saber partilhado entre a psiquiatria e as restantes especialidades médicas, havendo um corpo de conhecimentos básicos – aqui revistos numa perspectiva essencialmente prática – que não pode ser descurado pela formação médica geral.

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Estabilizadores do Humor

Neste grupo incluem-se os sais de lítio, a carbamazepina e o valproato. Ulteriormente juntaram-se a esta lista outros anticonvulsivantes, como o topiramato e, mais recentemente, a lamotrigina. E no mínimo duvidoso que o topiramato, em monoterapia, garanta um efeito estabilizador significativo, devendo preferencialente ser considerado como uma terapêutica add on.
O uso psiquiátrico da lamotrogina é aqui a mais recente novidade. Compete afirmar que as suas virtualidades terapêuticas em psiquiatria não terão sido devidamente demonstradas e que, por outro lado, é um medicamento – como é bem conhecido – com um perfil problemático do ponto de vista da segurança, nomeadamente pelo risco de toxicidade hepática. Apesar destes aspectos, e também sendo um medicamento pouco manejável, que exige uma fase prolongada e medicamente vigiada de titulação da dose, é mais um composto que ganhou aceitação entre os psiquiatras portugueses, muitas vezes prescrito em doses reconhecidamente subterapêuticas. Um aspecto particular refere-se ao facto de, tal como no caso da quetiapina atrás referido, poder ser eficaz nas “depressões bipolares”.
De um modo geral, as indicações psiquiátricas deste grupo de fármacos relacionam-se com as perturbações afectivas recorrentes, com destaque para a doença bipolar. A associação do lítio a antidepressivos potencia o efeito terapêutico e tem sido proposta no tratamento das depressões “resistentes”.
Os critérios de decisão terapêutica nesta área da psiquiatria comportam alguma ambiguidade, por manifestas influências de escola. O uso de anticonvulsivantes na doença bipolar (e em especial do valproato) tem sido privilegiado pelas escolas norte-americanas, que defendem o emprego destes fármacos não apenas com finalidades preventivas, mas também no tratamento agudo da mania e até da depressão. Em contrapartida, a psiquiatria europeia adopta preferencialmente uma perspectiva mais conservadora, valorizando a finalidade preventiva e aceitando mais facilmente o uso de tratamentos agudos com antipsicóticos ou antidepressivos nas fases de descompensação. De qualquer modo, a doença bipolar inclui tipos clinicamente distintos e de gravidade diversa, que reconhecidamente condicionam a escolha do fármaco estabilizador, não sendo também infrequente a necessidade de recorrer a associações entre estabilizadores e eventualmente outros psicofármacos.
Para o médico não especialista importa sobretudo chamar a atenção para os aspectos particulares da farmacologia do lítio, nomeadamente no que se refere à necessidade de monitorização dos respectivos níveis plasmáticos (com janela terapêutica estreita), aos sinais de toxicidade aguda e crónica e às interacções com uma considerável variedade de fármacos, entre os quais, medicamentos de uso corrente como diuréticos e anti-inflamatórios. Por sua vez, as regras de utilização e precauções aconselhadas com o valproato, a carbamazepina e outros anticonvulsivantes não divergem das adoptadas, quando esses fármacos são utilizados como anticonvulsivantes.

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Antipsicóticos II

O fármaco de referência deste grupo é a clozapina. Este medicamento havia sido inicialmente introduzido como neuroléptico, e mais tarde retirado dos mercados por problemas de toxicidade hematológica. Ulteriormente foi “redescoberto” como um fármaco de características inovadoras, que pela primeira vez parecia facultar uma potente acção antipsicótica na ausência de efeitos extrapiramidais e endocrinológicos. A identificação deste perfil abriu caminho a uma linha de investigação que se revelou frutuosa, com a introdução de outros compostos com um perfil idêntico ou próximo. Presentemente, no nosso país, estão disponíveis a olanzapina, a quetiapina e a a ziprazidona. A risperidona é habitualmente incluída no mesmo grupo, embora com este medicamento possam ocorrer, em relação com a dose, os clássicos efeitos extrapiramidais e endocrinológicos.
Importa ter presente que estes novos antipsicóticos, ao invés do que sucede com os clássicos neurolépticos, constituem um grupo química e farmacologicamente heterogéneo, para além de diferenças assinaláveis em relação às suas efectivas propriedades terapêuticas. Mais uma vez, a questão das doses úteis não está devidamente esclarecida, verificando-se, por exemplo, a proposta de utilização de doses cada vez mais elevadas se se pretende obter um verdadeiro efeito antipsicótico (por exemplo, em relação à olanzapina e à quetiapina). Em simultâneo, assiste-se a uma utilização, muitas vezes off label, destes medicamentos em doses deliberadamente baixas, para retirar vantagem terapêutica de acções colaterais, como é exemplificado pela utilização da olanzapina e da quetiapina como fármacos sedativos e/ou facilitadores do sono, para tratamento da insónia.
Um aspecto farmacológico particular da ziprazidona, aparentemente pouco conhecido ou tido em conta, é o facto de, em doses ligeiras ou moderadas, ter um comportamento SSRI-like (antidepressivo mas nessa medida susceptível de agravar a sintomatologia psicótica), só sendo possível obter uma efectiva acção antipsicótica com doses mais elevadas.
Mais recentemente ficou disponível um novo antipsicótico, cujo perfil farmacológico é inovador em relação à geração de novos antipsicóticos atrás referida. Trata-se do aripripazol, que além de partilhar com os seus antecessores acções sobre o sistema serotoninérgico (daí a sua classificação como SDA, isto é, antagonistas dos receptores da dopamina e da serotonia), se distingue, entre outros aspectos, por uma acção modulatória sobre os receptores dopaminérgicos. É um medicamento com acção antipsicótica bem documentada – para além de um “racional” teoricamente interessante – mas não desprovido dos tradicionais efeitos extrapiramidais.
De vários pontos de vista, o aripiprazol parece ser o primeiro membro de uma 2.ª geração dos novos antipsicóticos. Não só pelo já referido perfil farmacodinâmico próprio, mas também por virtualmente não estar associado ao risco elevado de toxicidade metabólica (dislipidemia, hipercolesterolemias, resistência à insulina, diabetes tipo 2, aumento ponderal; eventual hipertensão) que é um traço partilhado (embora com taxas de risco diversas) aos anteriores novos antipsicóticos.
Importa ainda destacar que a boa tolerabilidade dos novos antipsicóticos facilita a sua utilização num campo mais alargado de indicações. É certo que os clássicos neurolépticos eram – e são – utilizados não apenas no tratamento da esquizofrenia, mas também numa larga variedade de síndromes psicóticas, em quadros de agitação psicomotora de etiologia diversa.
Em particular, com os novos antipsicóticos há dados que demonstram a sua utilidade na doença bipolar ou doença maníaco-depressiva, quer como antimaníacos, quer como tratamento a longo prazo com intuito estabilizador, eventualmente em associação com estabilizadores convencionais. Sucessivamente, estes fármacos têm visto oficialmente aprovadas estas indicações pelas agências do medicamento.

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Antipsicóticos

O grupo dos antipsicóticos inclui duas grandes classes de medicamentos: por um lado, os clássicos neurolépticos; por outro lado, os chamados antipsicóticos atípicos ou novos antipsicóticos.
Os neurolépticos são medicamentos que pertencem a diferentes grupos químicos, entre as quais as fenotiazinas, os tioxantenos, as butirofenonas, as difenilbutilpiperidinas e as dibenzodiazepinas. De qualquer modo, em relação aos aspectos farmacológicos, trata-se de um grupo com uma apreciável homogeneidade no sentido em que todos estes medicamentos são antagonistas dos receptores dopaminérgicos, sendo admitido que esta acção é responsável pelo seu efeito antipsicótico. As diferenças dizem respeito aos perfis de afinidade preferencial para os vários tipos de receptores dopaminérgicos, bem como à diversidade de acções bioquímicas associadas.
O perfil farmacológico dos neurolépticos é facilmente compreensível se se tiver em conta que a sua acção antidopaminérgica não é selectiva, exercendo-se ao nível de todos os grandes feixes dopaminérgicos. Há evidência segura de que o efeito antipsicótico resulta do bloqueio dopaminérgico no sistema mesolímbico; idênticas acções bioquímicas envolvendo os sistemas nigro-estriado e túbero-infundibular são responsáveis pela indução de sintomas extrapiramidais e endocrinológicos (hiperprolactinemia), respectivamente, que são reacções adversas observadas com todos os fármacos deste grupo; o envolvimento do sistema mesocortical poderá ser responsável pela indução e/ou agravamento de sintomas deficitários.
A ocorrência de quadros extrapiramidais (distonias agudas, síndrome parkinsónica, acatisia e ainda discinesias tardias) constituiu sempre uma limitação importante ao uso dos neurolépticos, não só pela gravidade médica de algumas dessas situações como pelo compromisso do bem-estar e da capacidade funcional. Por outro lado, na esquizofrenia e outras doenças psicóticas, os neurolépticos actuam sobre a vertente sintomática “positiva” (isto é, delírios e alucinações), mas são desprovidos de eficácia ou têm mesmo efeitos indesejáveis sobre os sintomas “negativos” ou deficitários que acompanham esse tipo de perturbações.
Em contrapartida, a nova geração de antipsicóticos tem um perfil farmacológico à partida mais favorável, desde logo pelo facto de não induzirem, pelo menos de forma significativa, efeitos extrapiramidais e endocrinológicos. Há também indicações de que, a par das propriedades antipsicóticas, alguns destes medicamentos são capazes de melhorar a sintomatologia deficitária, podendo também corrigir défices neurocognitivos que se observam na esquizofrenia. Este perfil explica-se pela circunstância destes fármacos terem uma acção antidopaminérgica selectiva ao nível do feixe mesolímbico, e simultaneamente facilitarem a transmissão dopaminérgica no feixe mesocortical.
Os mecanismos bioquímicos que permitem esta selectividade não estão completamente esclarecidos, sendo correntemente admitidas diferentes hipóteses. Poderá mesmo suceder que essa mesma selectividade possa ser obtida por diferentes vias farmacológicas, em concordância com o facto de os novos antipsicóticos constituírem um grupo heterogéneo dos pontos de vista químico e farmacológico.

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Antidepressivos III

Em Portugal, à semelhança do que sucede na maioria dos países, estão disponíveis outros antidepressivos, incluídos em grupos químico-farmacológicos diversos. É o caso da mirtrazapina, da trazodona, da tianeptina e da moclobemida. Este último medicamento é sobrevivente único de um grupo de inibidores selectivos e reversíveis da MAO-A; por contraposição aos clássicos IMAO, hoje praticamente abandonados, é um medicamento muito bem tolerado e seguro, mas com uma eficácia problemática pelo menos nas depressões com gravidade clínica, e cuja utilização se encontra em fase de manifesto declínio.
Mais recentemente, um “velho” antidepressivo com tradição de uso sobretudo nos EUA- o bupropião -, após um período de reciclagem como medicamento potencialmente útil na cessação do consumo tabágico, “reapareceu” como antidepressivo, com nova forma galénica e proposta de utilização em doses mais elevadas. É de facto um medicamento longamente conhecido, com uma acção neuroquímica essencialmente potenciadora da transmissão dopaminérgica, traduzida, no plano terapêutico, por propriedades activadoras.
Importa destacar que a depressão não é a única indicação terapêutica dos antidepressivos.
Em medicina é desde há muito reconhecido o benefício terapêutico de alguns tricíclicos em síndromes álgicas de natureza e etiologia diversas, nomeadamente na área das cefaleias e da dor reumatológica. Por seu turno, os SSRI surgem indicados na fibromialgia, na fadiga crónica e na síndrome de tensão pré-menstrual.
No âmbito da psiquiatria, outro aspecto importante relaciona-se com a utilização da clomipramina e de SSRI no tratamento de perturbações da ansiedade, como o pânico, as fobias e a perturbação obsessivo-compulsiva; a ansiedade generalizada é também uma indicação aprovada da generalidade dos SSRI e também da venlafaxina. Em especial, o uso desses medicamentos na perturbação de pânico, com ou sem agorafobia, revela-se dramaticamente eficaz. Merece referência que as doses óptimas na patologia ansiosa não só diferem entre os diferentes tipos de distúrbio ansioso como em relação ao uso dos mesmos medicamentos na depressão.
Pelo facto de serem medicamentos largamente utilizados – e muitas vezes em situações clínicas que se acompanham de insónia – interessa referir os efeitos dos antidepressivos sobre o sono. Os estudos poligráficos mostram que praticamente todos os antidepressivos são supressores do sono REM; já os efeitos sobre a duração e continuidade do sono, bem como sobre o sono lento profundo, são muito variáveis; deste ponto de vista, alguns antidepressivos têm efeitos inconvenientes, enquanto outros têm uma acção promotora do sono. Estas propriedades favoráveis explicam a utilização off label de alguns antidepressivos sedativos no tratamento sintomático da insónia. Esta posição é objecto de controvérsia, afirmando alguns que a modificação do sono REM e o perfil de efeitos secundários desaconselham esse tipo de utilização. No entanto, o efeito hipnótico pode ser conseguido com doses inferiores às que produzem efeitos indesejáveis, para além do facto de as acções sobre o sono REM não se associarem a efeitos deletérios conhecidos. A trazodona constitui, a este propósito, um caso particular, na medida em que está aprovada a sua utilização no tratamento da insónia.

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Antidepressivos II

Do ponto de vista farmacológico, os SSRI têm efeitos anticolinérgicos mínimos ou nulos, sendo também muito mais seguros no plano cardiológico; as reacções adversas mais frequentes traduzem-se por manifestações gastrintestinais, nomeadamente desconforto abdominal, náuseas e vómitos; podem também causar alguma ansiedade e inquietação, a par de insónia; em regra, estas reacções adversas declinam com a continuação do tratamento. Por outro lado, as formulações disponíveis permitem esquemas posológicos simples, quase sempre em toma única, sem necessidade de titulação da dose e com doses óptimas sujeitas a fraca variação interindividual.
A par do crescente reconhecimento, pela comunidade médica e pela própria opinião pública, da importância clínica e social da depressão, a disponibilização de meios farmacológicos simples e eficazes veio banalizar o tratamento da depressão num sentido positivo. De forma mais notória ao longo dos últimos 10 anos, os tipos comuns de depressão ambulatória passaram a ser reconhecidos e tratados adequadamente em clínica geral, com vantagem para o doentes e para os próprios serviços de saúde.
Em anos mais recentes, surgiram os chamados SNRI, sendo a venlafaxina o composto de referência deste grupo. São antidepressivos que inibem selectivamente a recaptação da serotonina e da noradrenalina; no que diz respeito à tolerabilidade e reacções adversas, têm um perfil próximo do observado com os SSRI.
No que se refere à eficácia antidepressiva, há indicações de que os clássicos tricíclicos oferecem vantagens nas formas graves de depressão, e em particular nas depressões melancólicas ou endógenas. No caso de resistência terapêutica aos antidepressivos de nova geração, o recurso a tricíclicos permite, com frequência, a obtenção de melhorias clínicas, parecendo certo que o inverso raramente sucede. Há também dados sugestivos de que a venlafaxina, utilizada em doses altas, tem uma eficácia comparável à dos tricíclicos. Aliás, em anos recentes, assistiu-se a uma revisão das doses úteis de venlafaxina, no sentido do uso de doses mais elevadas do que as inicialmente propostas, pelo menos nas depresssõs intensas e/ou graves.

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Antidepressivos

Do ponto de vista das características químicas e farmacológicas, os antidepressivos constituem um grupo heterogéneo, não estando sequer esclarecido o seu mecanismo (ou mecanismos) de acção. Até ao presente, foram introduzidas dezenas de compostos antidepressivos, mas de um ponto de vista prático, tendo em conta os fármacos mais frequentemente utilizados, justifica-se individualizar dois ou três grupos principais.
O primeiro desses grupos integra os clássicos antidepressivos tricíclicos, e também outros compostos policíclicos com características farmacológicas semelhantes. A imipramina foi o primeiro antidepressivo tricíclico, introduzido ainda nos anos 50, tendo inaugurado uma larga família de “derivados imipramínicos”, como a amitriptilina, a clomipramina e a nortriptilina, que constituem o núcleo de referência deste grande grupo farmacológico. Estes fármacos são inibidores não selectivos da recaptação das monoaminas, interferindo na transmissão serotoninérgica, noradrenérgica e também dopaminérgica; têm também afinidade para os receptores muscarínicos e produzem efeitos cardiotóxicos.
Os efeitos anticolinérgicos e a cardiotoxicidade são responsáveis pelas reacções adversas mais frequentemente observadas e por algumas contra-indicações formais.
Os problemas de tolerabilidade e toxicidade dos tricíclicos tornam estes fármacos pouco “amigáveis”, e obrigam a respeitar um conjunto relativamente complexo de regras de utilização. No essencial isto permanece verdade mesmo com tricíclicos e outros policíclicos com “desenho melhorado”, desenvolvidos ao longo de anos. Estas razões explicam que o uso destes medicamentos tenha permanecido confinado à psiquiatria, pelo menos no que se refere à sua verdadeira utilização como antidepressivos, em doses por regra elevadas.
Ao longo das décadas de 80 e 90, o cenário das terapêuticas antidepressivas sofreu uma evolução decisiva com a introdução de um segundo grande grupo de fármacos, correntemente designados por SSRI, ou inibidores selectivos da recaptação da serotonina.
Este grupo, que inclui a fluvoxamina, o citalopram, o escitalopram, a fluoxetina, a paroxetina, a sertralina e a duloxetina, veio facultar, pela primeira vez, formas simples, seguras e eficazes de tratamento antidepressivo, ao alcance dos médicos não especialistas.
Uma breve nota sobre o escitalopram (isómero activo do citalopram), o mais recente destes grupo de medicamentos, que rapidamente ganhou popularidade na comunidade médica, sobretudo pela sua excelente tolerabiliade, eventualmente à custa de uma relativa perda de eficácia antidepressiva. Também dados mais recentes sobre o perfil farmacodinâmico deste medicamento levam alguns a questionar a sua inclusão no grupo dos SSRI.
O medicamento SSRI mais recentemente chegado ao mercado é a duloxetina. Na verdade, trata-se de um composto cuja investigação e desenvolvimento data já de há décadas, aparentemente sem características farmacológicas particulares, mas que veio a ser posicionado como fármaco de escolha para a depressão associada a dor (sendo certo e conhecido desde há muito que uma larga variedade de antidepressivos possuem propriedades antiálgicas, para além de frequentemente resolverem as queixas dolorosas quando estas constituem parte integrante do quadro depressivo).

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Ansiolíticos e Hipnóticos

As benzodiazepinas constituem o grupo químico-farmacológico mais utilizado com finalidades ansiolíticas e hipnóticas. Tal deve-se à sua reconhecida eficácia e ao facto de serem ainda escassas as alternativas farmacológicas. Os riscos associados ao potencial de abuso e dependência, e também às interacções com sedativos e álcool, obrigam no entanto a uma utilização criteriosa. Os novos medicamentos desta área terapêutica, ditos “agentes não benzodiazepínicos”, não têm estas desvantagens, e a sua introdução constituiu certamente um avanço assinalável; no entanto, circunstâncias de várias ordens tornam a sua utilização limitada.
Como ansiolíticos “não benzodiazepínicos” foram ensaiados, ao longo das últimas duas décadas, vários agonistas selectivos dos receptores 5-HT1A da classe das azapironas, como a buspirona, a isapirona e a tandospirona, e também antagonistas selectivos dos receptores 5-HT2, como a ritanserina. No entanto, apenas a buspirona está disponível para uso terapêutico, sucedendo também que o seu perfil de indicações não é sobreponivel ao das benzodiazepinas. Na verdade, a buspirona não propicia uma ansiólise rápida, e o seu efeito terapêutico incide sobretudo sobre os sintomas de ansiedade e tensão psíquica; em doentes com sintomas importantes de ansiedade somática (nomeadamente manifestações vegetativas), ou quando houve exposição prévia a benzodiazepinas, a buspirona tem uma utilidade no mínimo parcial.
Os hipnóticos “não benzodiazepínicos” pertencem ao grupo das ciclopirrolonas (zopiclone) e das imidazopiridinas (zolpidem). Estes fármacos têm um efeito terapêutico virtualmente confinado à acção hipnótica e distinguem-se também pela diminuta interferência no funcionamento psicomotor e ausência de potencial de abuso e dependência.
As acções deletérias sobre o sono lento profundo, bem como as alterações do sono REM produzidas pelas benzodiazepinas não se observam com a administração de zolpidem, que parece poupar a arquitectura normal do sono.
Também no caso dos hipnóticos “não benzodiazepínicos” se constata uma eficácia parcial em doentes expostos a tratamentos prolongados ou recentes com benzodiazepinas.
Constituem certamente uma alternativa válida em doentes não medicados e com insónias de grau ligeiro ou moderado, pois a sua potência hipnótica é limitada. De notar que no mercado português apenas está disponível o zolpidem.
Por seu turno, a generalidade das benzodiazepinas produz sedação, sonolência, ansiólise, efeitos anticonvulsivantes e relaxamento muscular, dependendo a intensidade de cada uma destas acções dos perfis farmacodinâmico e farmacocinético, e também da dose.